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Projeto Aleijadinho

A escolha da imagem - ou iconografia - do profeta tem diversos referenciais aparecendo como imagens criadas desde os primórdios da cristandade – não como corpos figurados, mas com as citações de suas frases – corporificadas por meio de esculturas na Idade Média e no período românico. Antes disso, a escultura era pouco usada na arte paleocristã. A relativa proximidade, o pouco tempo decorridos entre o paganismo que adorava os ídolos apresentados como esculturas, e a cristandade nascente, fez com que a opção pela pintura e pelo mosaico, destituídos da materialidade portanto corpórea, se impusesse sobre o escultórico da idolatria. Passados quinhentos anos, o distanciamento do tempo do mundo romano somado ao tempo dos cativeiros do povo judeu – Egito e Mesopotâmia – já Antiguidade na perspectiva do mundo medieval – , a imagética dos profetas estava livre para criar convenções a serem seguidas. Nos portais das catedrais góticas, os reis Davi e Salomão são representados junto aos profetas, sentados do lado direito de Cristo. Ostentam longos cabelos e barbas, filactérios e ornamentos na cabeça – barrete, turbante, capuz – que assim constituem sua iconografia.

O distanciamento histórico pode ser expresso na configuração geral, logo percebida pelo fiel por meio da indumentária  :  a túnica remetendo ao estado de espírito místico. Plasticamente, seguia um misto de panejamento diz-se da roupagem de figuras pintadas ou esculpidas com relação às dobras ou ondulações das vestes. (Nos profetas são compostos pelas túnicas longas ou curtas e os mantos que formam a volumetria em todas as faces) – pregas das túnicas – imitando as linhas dos mosaicos bizantinos, dos traços mais fortes dos afrescos românicos e, da antiguidade, as pregas das togas romanas. Na Idade Média a vestimenta é muito importante pois é o primeiro fator visual a distinguir as classes sociais estratificadas, que duraram séculos. O barrete ou turbante é um apelo visual utilizado e convencionado na Idade Média também como distinção social e profissional. São as cabeças coroadas dos reis, os elmos dos guerreiros, as plumas e pedras preciosas das tiaras das damas e os turbantes dos peregrinos, criando uma metáfora para cada indivíduo a ser inserido no grupo social. O profeta, é místico e distante no tempo histórico – Antigo Testamento – e espaço geográfico – no Médio Oriente. A túnica refere-se ao despojamento dos bens materiais; a cabeça coberta, respeito com o contato com o divino.

O profeta é destituído de sua corporalidade, ao contrário do destaque à beleza física das esculturas greco-romanas, e assim estão dispostos nos portais das igrejas românicas e góticas. A eles são conferidas a prerrogativa do tamanho simbólico, usual nos mosaicos bizantinos e afrescos românicos. Suas estaturas são comparáveis às dos reis da Judéia – que também eram profetas – e convivem no círculo dos homens consagrados, ladeando a figura de Cristo, em uma evidência de que suas profecias se concretizaram. Com a gestualidade entre o apontar suas palavras – em geral em fitas com textos escrito – e a ênfase da palavra falada durante a exortação, a Igreja direcionou o artista ora mais nas escrituras ora alternando na gestualidade – característico do período barroco estilo artístico do século XVII e parte do XVIII, período da reforma protestante, contra reforma católica e política absolutista; estilisticamente está associado às formas em movimento, dramaticidade de expressões, colorido intenso, sombras e luzes. . A palavra escrita é a prova da revelação de divina e a fala (prédica) expressão temporal atuante em um determinado período, renovado e acompanhado de humanidade.

 A gestualidade e expressão facial confirmam a profundidade das palavras proféticas, evidenciando a verdade revelada. Na arte há toda uma convencionalidade gestual tão forte quanto os atributos símbolo, insígnia ou qualquer elemento que, numa escultura, pintura ou gravura, serve para identificar determinado santo. (Portadas das igrejas franciscanas e carmelitas com o escapulário ou estigmas) que servem para a distinção dos personagens santificados. O fato primordial da vida do profeta é a palavra dita e depois escrita. Acompanhando a expressão facial, a postura do corpo confirma sua mensagem. Depois da indumentária, os gestos das mãos são contidos, pois nas catedrais estão dispostos como colunetas nos portais em espaços exíguos e intercalados entre si. As mãos indicam os textos sagrados esculpidos em fitas – os filactérios rolo de pergaminho com textos sagrados; (filactera) pequena caixa contendo textos bíblicos escritos em cédulas de pergaminho; na Idade Média, fitas com inscrições dos dizeres dos personagens, em geral os santos; na Idade Moderna, textos dos dizeres dos personagens nas histórias em quadrinhos – gestualidade essa que amplia a fala de exortação. Nestas casos, a expressão facial ganha elementos de leitura apenas convencionais, como a barba, para significar a sabedoria da velhice; longas cabeleiras confirmando o caráter deificado, e os lábios por vezes apenas entreabertos, prenunciando a fala.

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BAZIN, Germain
Aleijadinho e a Escultura. Rio de Janeiro : Record, 1971.



CHEVALIER, Heab e GHEERBRANT, Alain.

Dicionário de Simbolos. Rio de Janeiro : Ed. José Olympio, 1990.



JENNI, E. e C. WESTERMANN
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Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento. Madrid : Ed. Cristandad, 1978.



OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro.

Aleijadinho : Passos e Profetas. Belo Horizonte: Editoras Itatiaia/EDUSP,1984.