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Projeto Aleijadinho

Ainda na Idade Média as figuras dos profetas ganharam espacialidade individualizada, continuando porém perfilados e unidos em grupos reconhecíveis como testemunhas que antecederam a encarnação de Cristo. Ganharam espaços nos vitrais, ricamente ornados com vestimentas coloridas e suas palavras acompanhava-os nas fitas escritas. Nos desenhos da capitulares dos incunábulos – livros escritos à mão sobre pergaminhos – confirmavam a importância da palavra escrita. Por vezes apareceram em capitéis com  turbantes nas cabeças, confundidos com as figuras de astrólogos, que liam os mistérios contidos nos sete círculos dos corpos celestes. A distinção entre estes e os profetas está no uso dos instrumentos: de medição pelos astrólogos, e da escrita pelos profetas, coincidindo por vezes nas vestimentas, nos turbantes e nos olhares para o firmamento em busca da verdade. A inclusão dos apóstolos na iconografia junto com os profetas, e aqueles são facilmente distintos pelos seus atributos símbolo, insígnia ou qualquer elemento que, numa escultura, pintura ou gravura, serve para identificar determinado santo. (Portadas das igrejas franciscanas e carmelitas com o escapulário ou estigmas) , deu-se de maneira até curiosa, pois os profetas carregavam em seus ombros os apóstolos e evangelistas do Novo Testamento.

Um fator histórico importante para que os profetas se destacassem na iconografia medieval foi a perda de Jerusalém para os muçulmanos, impedindo assim a peregrinação à terra santa. A figura dos profetas do Antigo Testamento foi evocada junto a todo o processo de espera e confirmação da vinda de Cristo feito homem. Dispostos em fileiras nos adro pátio, em geral fechado, à frente ou em torno das igrejas. (Profetas de Congonhas e São Francisco de Ouro Preto) e escadaria de igrejas, levavam o fiel a percorrer um tempo histórico visível na indumentária e espacial simbolizando a caminhada do povo eleito agora como cristão. A individualidade das figuras possibilitou enfatizar outro aspecto físico do profeta: seu deslocamento no espaço, simbolizado na posição dos pés e nos calçados por eles utilizados. Nos portais das catedrais góticas permaneciam hirtos, baluartes da verdade contida em suas palavras. No Renascimento, confirmado no período barroco estilo artístico do século XVII e parte do XVIII, período da reforma protestante, contra reforma católica e política absolutista; estilisticamente está associado às formas em movimento, dramaticidade de expressões, colorido intenso, sombras e luzes. , o andar (por vezes descalço), o deslocamento aliado aos panejamentos diz-se da roupagem de figuras pintadas ou esculpidas com relação às dobras ou ondulações das vestes. (Nos profetas são compostos pelas túnicas longas ou curtas e os mantos que formam a volumetria em todas as faces) vigorosos e movimento dos gestos ritmados, por  todo o corpo e com concentração visual na expressão facial. Assim estão mais teatralmente dispostos os profetas nas reconstituições do santuários de montanha, como em Congonhas, a evocarem o caminho de Cristo para a redenção. Os profetas são personagens a serem evocados neste processo e precisam ser caracterizados como distantes no tempo, construtores de uma escritura profética tornando-se figuras de relevo, altivas, bem expressas em suas vestimentas.

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BAZIN, Germain Aleijadinho e a Escultura. Rio de Janeiro : Record, 1971.


 

CHEVALIER, Heab e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Simbolos. Rio de Janeiro : Ed. José Olympio, 1990.


 

JENNI, E. e C. WESTERMANN. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento. Madrid : Ed. Cristandad, 1978.


 

OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro. Aleijadinho : Passos e Profetas. Belo Horizonte: Editoras Itatiaia/EDUSP,1984.


 

SANCHÉZ, Tomás Parra. Dicionário da Bíblia. Aparecida : Editora Santuário, 1997.



TEIXEIRA, José de Monterroso.
Aleijadinho, o teatro da fé. São Paulo : Metalivros, 2007.