Download PDF Projeto Aleijadinho

Pedra sabão, em um bloco. 219 cm. (1800 -1805).
Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805).


Daniel – significa Deus é meu juiz – é um dos quatro profetas maiores que viveu dois extremos na vida: foi prestigiado pelos governantes pelo fato de interpretar sonhos, e cativo quando desterrado para a Babilônia. A inveja de seus inimigos levou-o a ser jogado vivo em uma cova com leões.

Ainda jovem foi levado para a Babilônia, durante o reinado de Nabucodonosor. Lá no cativeiro interpretou o sonho do rei sobre os quatro reinos que viriam sobre a terra; o último, o de Deus, não seria destruído. Também interpretou o sonho do rei Belsazar com quatro feras – leão, leopardo, urso e uma última fera com dez chifres – que seriam as potencias daquele período. O Filho de Deus estaria acima delas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Projeto AleijadinhoDisposto em local privilegiado, sobre a base misulada e um soco inclinado, aguarda serenamente o fiel entrar no patamar principal em direção à porta do templo. A visão que dele se tem é iniciada aos pés da figura de Ezequiel que também fora banido da terra de Israel para o cativeiro da Babilônia. À sua direita está Oseias — um diálogo olho no olho entre os homens prenunciadores da vinda de Cristo.

A escultura é monumentalizada pela perspectiva de baixo para cima a iniciar-se pelo pedestal levemente soerguido e crispado pela pata do leão, que projeta-se além dos limites do pedestal. Com a pata direita, elaborada em detalhe, oculta os pés do profeta, enquanto a juba volumosa cresce em meio a curvas e contracurvas até o focinho da fera subjugada pelo olhar místico do profeta. O detalhe da juba nos remete aos quatro leões – configurando a chamada essa, base para o caixão, que Aleijadinho fizera para as missas de corpo presente, expostos no Museu Aleijadinho em Ouro Preto.

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Daniel. Pedra sabão, em um bloco. 219 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG. (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli.

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Daniel. Pedra sabão, em um bloco. 219 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG. (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli.

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Daniel. Pedra sabão, em um bloco. 219 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG. (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli.

 

Vista pelas quatro faces, a volumetria da figura é distribuída de maneira equilibrada, gerando continuidades nas diversas posições. A primeira engloba a frontal e lateral, na qual a faixa das escrituras, mais plana, contrapõe-se à face oposta das luzes e sombras da figura arredondada do leão. A sequencia do panejamento da túnica é triangular, com dobras bem dispostas desde o joelho, que se adianta, entre as pernas e duas linhas em V a partir da cabeça da fera, e prenuncia a grande dobra do manto com desenhos que cairá sobre as costas até a base na parte posterior.

As mãos e braços se encontram em funções similares – segurar o filactério de um lado e levantar o manto para não ser arranhado pelo leão – gerando plasticidades opostas. Seu braço direito, com a manga amassada, cria um vazio, enquanto o braço esquerdo é oculto por uma sequencia de dobras amplas que se equilibra em volumetria com a corporalidade da besta. O grande peso visual do amassado da túnica retida pela mão cria um hiato para o diálogo entre as duas cabeças – bestialidade e humanidade. Este espaço proposital ganha distrações visuais a partir da linha sinuosa da juba, os desenhos barrocos da prega do manto, até dar um tempo para a contemplação da cabeça levemente inclinada e emoldurada por ampla cabeleira, similar à do leão. Isso não seria o suficiente, pois a relação seria imediata. Ocorre que Aleijadinho amplia a cabeça do profeta com um barrete laureado com detalhes das folhas, de tal maneira que nosso olhar tremula entre sua face imberbe com nariz inclinado e as linhas horizontais do ramo de louros, da gola com uma linha vertical que se une às linhas arredondadas da sobrecapa e abaixo no cinto horizontal quebrado pela linha inclinada da dobra.

Parte Posterior

A parte posterior da figura, pela sua visibilidade no adro, ganhou requintes compositivos fundamentada no peso e estrutura de obra clássica: mostrar sua integridade com os atributos – leão e escritos – o manto ora verticalizado como uma coluna, ora em ziguezague servindo de estrutura visual e compositiva. Acima, a cabeça e o barrete. Um toque humano, até gracioso, denota um artista que jamais vira um leão: a cauda hirta em movimento em S, empurrando o manto e criando uma rima com a linha curva do filactério.

Face lateral Ao descer as escadarias do adro, o fiel pode contemplar o perfil do profeta, destacado pelo fundo branco da parede do frontispício. Ergue-se a partir do filactério, das dobras do joelho proeminente, o alongamento do braço com manga de tecidos amassados e o perfil sereníssimo, divinizado pelos suas profecias e desvendamento de sonhos de reis humanos a alcançar a eternidade no prenúncio do reino de Deus. Aleijadinho tem nesta obra o máximo de sua arte da maturidade, expressão toda de sua força qual dom raro entre os humanos. A beleza encarnada em pedra é comparável à das suas obras em madeira, dos místicos São João da Cruz e São Simão Stock (igreja do Carmo de Sabará), momentos culminantes de obras da juventude do artista segundo o modernista Mário de Andrade.

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Projeto AleijadinhoO profeta Daniel é dos preferidos pelos artistas, por ser sua representação o fato inusitado do convívio entre o humano e a bestialidade. No mundo clássico, Rafael de Sanzio o desenhou, e, segundo Germain Bazin, Aleijadinho teve como referencial uma gravura a partir deste desenho do artista renascentista. No período barroco, Peter Paul Rubens pintou dos quadros mais celebrados do fato milagroso de Daniel na cova com os leões (1613 -1615) circundando-o com grande quantidade de feras, como aquelas que ele decifrara nos sonhos. Michelangelo, nos afrescos da Capela Sistina (1508 -1512), imaginou-o dinâmico e ao mesmo tempo absorto no ato da escritura, cujo livro é suportado por um putto (anjinho) enquanto sua mão descansa sobre a rigidez do livro. Com a outra mão escreve e seu olhar atento observa as letras. O leão é símbolo do poder real, e por vezes a Virgem e Cristo podem ser representados em tronos sustentados por leões. O tratamento que Aleijadinho deu ao leão aproxima essa peça a uma joia; suas patas, tão comuns nos pés de móveis joaninos, ganharam destaque sobre o soco inclinado.

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Projeto AleijadinhoEncerrado (por ordem do rei) na cova dos leões, sou libertado, incólume, com o auxílio de Deus. Daniel, Cap. 6.

SPELAEO INCLU/SUS (SIC REGE/JUBENTE) LEO/NUN,NUMINIS AU/XLIO LIBEROR/INCOLUMIS. DANIEL/CAP.5.

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BAZIN, Germain. Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1970.


NAVARRO, José Gabriel. Contribuiciones a la historia del arte em el Ecuador. La Compañia. Quito : Ediciones Trama, 2006. v.4.


OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Aleijadinho e o santuário de Congonhas. Roteiros do Patrimônio. Brasília : Monumenta/Iphan, 2006.


SORAIA, Maria Silva. Profetas em movimento. São Paulo : Edusp/Imprensa Oficial, 2001.


TEIXEIRA, José de Monterroso. Aleijadinho, o teatro da fé. São Paulo : Metalivros, 2007.