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Projeto AleijadinhoPedra sabão em dois blocos, 234 cm. (1800 -1805).
Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805).


Habacuc, oitavo dos profetas menores, era da tribo de Levi e foi contemporâneo do profeta Jeremias. Quando o profeta Daniel estava preso na cova com os leões, Deus pediu-lhe que levasse comida a Daniel, guiado por um anjo. Passou alguns anos no cativeiro da Babilônia e, de volta a Jerusalém, é considerado como o guardião do templo de Salomão. Em meio às suas atribulações, o profeta questionou porque Deus não agia diante de seus clamores contra o povo caldeu opressor.

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Projeto AleijadinhoVista posterior da figura – a posição de Habacuc corresponde à de Abdias nos extremos do adro. Ambas as figuras estão predestinadas a grande visibilidade à distância e o recurso dos gestos largos as tornam importantes pontos visuais na cenografia, que se completa com os gestos dos braços colados ao corpo de Isaias, o do convite de Ezequiel. Aos poucos os corpos dos profetas ganham movimentos e os torsos os acompanham até os suaves movimentos dos pescoços e inclinações das cabeças. Os giros são acompanhados pelos passos e movimentação dos mantos com dobras espessas marcando direções opostas dos panejamentos, ora insuflados pelos ventos, ora pelas gestualidades extremas como de Abdias e Habacuc. O filactério sempre segura a composição nas vistas laterais criando primeiros planos. As vistas posteriores estão fundamentadas nas linhas das dobras do manto, retas até os ombros, ou formando Ss até a altura das mãos onde podem compor massas arredondadas de pesos virtuais que rimam com os exóticos barretes ou turbantes.

 Habacuc tem em sua vista posterior uma riqueza compositiva digna da vista frontal. Neste caso aplica-se praticamente duas vistas apenas, pois deve ser observado de baixo para cima e o fiel em constante movimento, até chegar à entrada da escadaria de convite onde Isaias e Jeremias o receberá com gestos comedidos. Lá no alto, a vista posterior é aproximada e os detalhes são visíveis. Um complexo panejamento com linhas diagonais prepara o gesto extremo do profeta ao levantar o braço esquerdo. O filactério contorna o manto no lado direito com suave curvatura, chegando a rimar com as curvas do parapeito onde a escultura se assenta. O contraste compositivo ao gosto barroco, desloca o olhar para o zigue-zague das dobras que alcançam a cintura e ensaiam uma subida quase vertical que se encontra com linhas diagonais das dobras do manto adamascado chegando até o braço.

 Aleijadinho reserva para esta parte posterior um verdadeiro tratado da gramática da escultura barroca ao velar e desvelar suas intenções na execução da cabeça de Habacuc. Ciente de que sua face se voltava para o vazio – pois o profeta está a pregar com veemência ao mundo exterior – o artista volta o rosto do profeta em direção oposta a seu gesto, obrigando-nos a mover nossos olhares entre aqueles dois polos visuais. Como esta participação de vivência com o gesto expresso ocorre fora do adro e à distância, Aleijadinho reserva para o espectador que se aproxima, apenas uma parte do perfil do profeta, que, semioculto, mostra-se depois que o olhar percorreu um caprichoso panejamento do tecido do barrete amarrado a uma borla tripartida. O tecido do turbante avança em dobras sulcadas em Vs que se expandem sobre as vastas madeixas com pontas enroladas em direções opostas, uma para trás sobre o ombro e outra no sentido contrário a anunciar parte do perfil do profeta. Neste jogo de revelar apenas uma parte da figura, a voluta do cabelo, cria uma zona escura antes de mostrar a parte inferior da face iluminada. Nova zona escura é criada pelo exótico tecido enrolado que serve de base para o barrete criando sobre a cabeça do profeta, em um escalonamento de formas arredondadas.

Vista desde baixo, à distância, a volumetria da escultura mostra-se na face frontal e lateral devido sua disposição e concepção. O bico da bota para fora do pedestal é encoberto pela túnica que sobe reta, enquanto o manto sai detrás do filactério em linhas ascendentes curvas a encontrarem com a ponta oposta do manto que se projeta no espaço, criando uma zona escura a rimar com a sombra projetada da cabeça. O braço direito segura esse pergaminho com texto bíblico, enquanto o esquerdo projeta-se obliquamente à linha do busto com um decote em V e gola saliente. A cabeleira desprende-se do lado esquerdo para compensar a linha exagerada que continua até a ponta do dedo indicativo. O enrolado da cabeleira direita prenuncia a barba em dois rolos formando quatro pontos arredondados nas extremidades que são disfarçados pelas linhas do bigode sinuoso. Deste ângulo, os volumes do toucado praticamente desaparecem, cedendo lugar ao perfeito perfil que enobrece o profeta.

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Projeto AleijadinhoEm várias de suas representações o gesto de estar profetizando é constante, podendo em Aleijadinho chegar a extremos como ao erguer o braço e indicar o céu. O escultor florentino Donatello, no Renascimento, esculpiu Habacuc (1420-1435) com longa toga deixando entrever os ombros nus, pés descalços e sem cabelo. Michelangelo, na capela Sistina, pintou-o jovem, em pleno vigor com vasta cabeleira, gesticulando com a mão esquerda enquanto entreabre um livro com a direita. Na Armênia, a Igreja Ortodoxa comemora seu dia em 2 de dezembro e seu ícone é reconhecido pelo gesto do dedo em sinal de pregação.

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Projeto Aleijadinho

Ó Babilônia, Babilônia, eu te arguo ó tirano da Caldéia : mas ti, ó Deus benigno; canto em salmos. Habacuc, Cap. 1.

TE BABYLON,/BABYLON, TE TE CHALDAEE TY/CALDAEE TY ARGUO : TE IN PSALMIS TE DEUS/ALME CANO./ HABACUC/CAP.1.

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BAZIN, Germain.
Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1970.


NAVARRO, José Gabriel.
Contribuiciones a la historia del arte em el Ecuador. La Compañia. Quito : Ediciones Trama, 2006. v.4.


OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de.
O Aleijadinho e o santuário de Congonhas. Roteiros do Patrimônio. Brasília : Monumenta/Iphan, 2006.


SORAIA, Maria Silva.
Profetas em movimento. São Paulo : Edusp/Imprensa Oficial, 2001.


TEIXEIRA, José de Monterroso.
Aleijadinho, o teatro da fé. São Paulo : Metalivros, 2007.