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Projeto Aleijadinho Pedra sabão em dois blocos, 201 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805).


Profeta da fé e justiça política, viveu em Jerusalém na segunda metade do século VIII a.C.. Isaias recebe os fiéis na escadaria de convite do santuário. Ele é o primeiro da lista da Vulgata (textos sagrados traduzidos para compreensão popular), pois é o mais importante e autor do primeiro livro dos profetas. Muito conhecido tanto no Antigo como no Novo Testamento – neste último, ele é citado mais de oitenta vezes. Viveu em Jerusalém no século VIII a.C., nos reinados de Achab e Ezequias. Foi o responsável por manter a esperança e fé de que um dia a salvação chegaria por meio do Messias, e por isso mesmo profetizou a anunciação à Virgem Maria e o nascimento de Cristo (estas profecias estão nas cenas pictóricas dentro da basílica).

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Projeto AleijadinhoIsaias é o primeiro profeta à esquerda sobre a pilastra misulada do portão acima do primeiro patamar da escadaria, a atuar como figura de convite. Ao entrar o peregrino o nota com vista frontal: é uma massa corpórea sem gestos largos e todos seus membros se prendem à massa, formando unidade inseparável. A túnica curta deixa aparecer com toda clareza a bota com cadarço em zigue-zague, o filactério, pergaminho com o nome do profeta e o texto bíblico. Acima, as duas mãos estão próximas, a esquerda a segurar o rolo e a direita indicando as profecias. Em forma de um grande V, os braços asseguram a subida do olhar para a parte mais expressiva da figura: a longa barba bipartida, volumosa, que nasce dos lábios entreabertos e de onde flui o ardor de suas palavras predizendo castigos. A cabeleira é achatada pelo tecido do manto que o envolve de maneira misteriosa, dignificando a imagem mítica do profeta encoberto ao estar tomado por Deus.

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Isaias. Pedra sabão em dois blocos, 201 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Isaias. Pedra sabão em dois blocos, 201 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli.

A segunda posição percebida pelo fiel é de perfil, com a linha ascendente do filactério e a mão que o segura com dobras do manto sobre o braço, entrecortadas por cortes profundos da goiva formando pregas volumosas em Vs invertidos. A segunda linha ascendente é da dobra do manto com desenhos imitando o tecido adamascado. Barba e cachos de cabelos destacam o perfil perfeito do profeta.

A parte posterior pode ser vista do primeiro degrau ao subir. Porém, este caminho fica para a descida das escadarias, depois que o fiel completou sua penitência. Três pregas do panejamento elevam a figura enquanto duas paralelas obliquas persistem no peso corroborado pelo manto sobre a cabeça. Alivia parte desta peça monumental o manto esvoaçante inferior e os desenhos do tecido adamascado iniciando nas linhas ondulantes da barra, na altura do suporte, e acima, no grande barrado com a sequencia completa de desenhos barrocos.

Por fim a lateral que se percebe ao descer as escadarias, fora do adro ou em voo de pássaro ao descer o último lance. Destacam a bota, rimando com uma pequena voluta do manto que se eleva do pedestal. No meio da figura, um grande amassado de tecido cria volume que se contrapõe com a cabeça encoberta situada entre as formas do tecido arregaçado do braço, com linhas triangulares, e com o ondulado da barba que eleva o perfil sombreado por pequeno topete, cuja forma rima com o levantar do tecido junto aos pés.

Feitura

É composta em dois blocos, como a maioria das outras obras, interligadas na altura dos ombros. Como já apontaram os especialistas em Aleijadinho, a exemplo de Myriam Andrade Ribeiro Oliveira, falta conjunção exata entre as partes inferior e superior, os ombros, apesar do manto são estreitos e os braços, curtos. São as marcas dos ajudantes do ateliê do mestre, pois este já estava em idade avançada. Porém todos os críticos são unânimes em aclamar esta efígie como das mais contundentes em beleza plástica e profundidade expressiva, um semblante iluminado pelo espírito divino.

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O profeta relata na primeira pessoa do singular, como se fora um personagem-ator tomando consciência de sua missão profética. Seus lábios são purificados durante uma visão de serafins em forma de brasa prenunciando as verdades que deveria falar durante sua nova missão de anunciar a vinda do Messias.

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Isaias. Pedra sabão em dois blocos, 201 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli.

Projeto Aleijadinho

Antônio Francisco Lisboa, Aleijadinho (1730/38 – 1814). Profeta Isaias. Pedra sabão em dois blocos, 201 cm. (1800 -1805). Santuário de Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas, MG (1757-1805). Foto: Arquivo pessoal Percival Tirapelli.

Iconograficamente tem vestes curtas, um manto que cobre toda sua parte posterior a formar um capuz monástico investindo seu novo papel a cumprir. Os tecidos são adamascados, pregueados e os amassados do manto caem em ritmo que vão desde o capuz, passando pelo manto sobre os ombros e braços, deixando transparecer as mãos. A direita segura o filactério e a esquerda indica as palavras escritas. Suas botas se erguem até o meio das canelas e o rolo com as escrituras oculta parte delas. A cabeça é das mais elaboradas, a começar pelas longas barbas que em rolos escorrem sobre o manto amassado em um continuum inverso ao drapejado. Seu semblante de preocupação está marcado nos sulcos da testa revelando idade avançada, ao mesmo tempo que a sabedoria ainda emana, mesmo sussurrando, de seus lábios comprimidos. Os lábios do profeta foram tocados com uma brasa ardente; simbolicamente o carvão está relacionado à Paixão de Cristo; o trono do Senhor, de onde o anjo a retirou, refere-se ao Messias. As duas linhas curvas do bigode que saem das narinas e que se unem com o ondular dos rolos da abundante barba, servem de moldura para os lábios que receberam o sinal do Senhor.

Há exemplos, como no santuário Bom Jesus de Braga em Portugal, no qual o profeta é representado com uma tenaz, simbolizando as orações dos pecadores. Rafael Sanzio retratou Isaias com a cabeça encoberta por um longo tecido mostrando vasta cabeleira e barba enquanto desenrolava o filactério com suas profecias. Na Capela Sistina do Vaticano (1508 -1512), Michelangelo pintou a figura de Deus criando Adão como senhor do tempo (Cronos) e sabedoria, ostentando vasta barba, mesmo atributo de que dotou ali o profeta Zacarias. São as outras figuras com barba as que mais se aproximam do Isaias de Aleijadinho.

 

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Projeto Aleijadinho

Em seu filactérios está escrito o resumo de sete de seus versículos: Depois que os serafins celebraram o Senhor, um deles trouxe aos meus lábios uma brasa com uma tenaz. Isaias, cap. 6.

Em latim: CUM SERA/PHIM DOMI/NUM CELEBRA/SSENT A SERAPH/UNO ADMOTA/EST LABRIS FOR/CIPE PRUNA/MEIS./ISAIAE CAP. 6

Seus escritos

Seu livro pode ser dividido em três partes sendo que a primeira, com 39 itens, contém a mensagem do próprio profeta Isaias que se preocupa com a santidade de Deus, elevando-o a Ser absoluto. Sua terra será salva, se permanecer unida e fiel ao projeto de Deus que tem a justiça como valor supremo. A segunda parte, de 40 a 55, foi escrita por um profeta anônimo que viveu na Babilônia durante o cativeiro do povo hebreu. Isaias, ao viver em anonimato, transmitiu mensagem de esperança, consolação e retorno do cativeiro. O último, também pode ser o Isaias, o profeta lança oráculos anônimos incentivando a união do povo que saíra do exílio da Babilônia, incentivando o convívio em Jerusalém.

É tido como o rei dos profetas pela sua linguagem e rara culminância literária, segundo J. Guinsburg. Fora tomado por Deus e seu verbo profético ostenta monumentalidade despojada, ritmada pela exaltação do espírito e pela contemplação da forma, denúncia da injustiça e a predição do castigo.

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BAZIN, Germain.
Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1970.


NAVARRO, José Gabriel.
Contribuiciones a la historia del arte em el Ecuador. La Compañia. Quito : Ediciones Trama, 2006. v.4.


OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de.
O Aleijadinho e o santuário de Congonhas. Roteiros do Patrimônio. Brasília : Monumenta/Iphan, 2006.


SORAIA, Maria Silva.
Profetas em movimento. São Paulo : Edusp/Imprensa Oficial, 2001.


TEIXEIRA, José de Monterroso.
Aleijadinho, o teatro da fé. São Paulo : Metalivros, 2007.