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Projeto Aleijadinho

Contexto Histórico de Minas Gerais

Confrarias e Irmandades

As irmandades, principalmente em Minas Gerais, onde as ordens primeiras religiosas haviam sido proibidas, pois temia-se pela posse das minas por parte dos religiosos, encarregam-se de transferir ao povo o encargo de construir templos e cemitérios, bem como o de preservar os caros e complexos cerimoniais do culto religioso e fomentar a devoção evocada. No Nordeste, a exemplo das irmandades dos próprios padres, a de São Pedro dos Clérigos e a dos Militares construíram dos mais belos templos no Recife. Criadas mais próximas às regras das ordens terceiras, agregavam diversos segmentos da sociedade mais instruída e abastada, prestando assistência religiosa e social aos irmãos. Já as confrarias eram herança medieval, que congregavam artesãos do mesmo ofício sob a evocação de um santo padroeiro, como São José para os marceneiros. Outro fator que levava a Coroa a incentivar essas associações era a canalização de conflitos e contradições do sistema colonial, que, ao mesmo tempo que as estimulava, vigiava, evitando assim aspirações de independência.

Os habitantes organizavam-se nessas irmandades ou agremiações religiosas leigas e se empenhavam em erigir um templo de sua devoção, além de arcar com as despesas do culto. A Coroa apenas pagava os vigários que desenvolviam suas funções nas igrejas matrizes. Cabia a cada irmandade procurar um capelão para desempenhar os ofícios religiosos, que poderia ser substituído a qualquer momento segundo os interesses da irmandade. Às festas constantes no calendário litúrgico adicionavam a do Anjo Custódio, do padroeiro da cidade e da associação, sendo a mais concorrida a de Corpus Christi.

Sempre celebradas com a pompa e a ostentação do poder econômico, eram custeadas pela Câmara e pelas Mesas das Irmandades. Para tal situação eram encomendadas composições musicais, contratavam-se coros e reputados pregadores. Na ocasião, expunha-se todo o aparato litúrgico ligado à teatralidade das procissões, na maioria elaboradas por negros, pardos e mulatos, mostrado no esplendor das alfaias, na ostentação de metais e pedras preciosas, concorrência que só contribuía para o esplendor da arte em seus templos.

Em Minas Gerais, sem o necessário apoio da Igreja organizada em ordens primeiras e a pronta instalação do clero mais hierárquico, foram as irmandades e confrarias que dominaram e construíram as igrejas. Os fiéis seguiram espontaneamente suas vocações, associando-se de preferência às seguintes irmandades: Nossa Senhora da Conceição, Pilar, Santíssimo Sacramento, São Miguel, Santana, Senhor dos Passos etc. Todas irmandades de brancos. Os pardos ou mulatos fizeram-se devotos das irmandades de Nossa Senhora do Amparo, Ordem Terceira de São Francisco de Paula, São José dos Bem-Casados e Pardos do Cordão. Os pretos se organizaram sob a proteção de Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Mercês e Santa Ifigênia.

A relevância dessas confrarias é fundamental na fusão do povo brasileiro, “por vezes coexistindo numa mesma igreja, abrigando-se nos nossos braços em cruz, amplamente abertos para abraçar todas as raças da terra; por vezes em igrejas separadas, com ciúmes umas das outras, numa concorrência mística” segundo Roger Bastide.

Os artífices, pintores, mestres-de-obra, escultores, santeiros, entalhadores e arquitetos negros, pardos e mulatos são presença constante na arte brasileira agregados a suas confrarias e irmandades, entre outros Aleijadinho, Mestre Valentim, o arquiteto pernambucano Jácome e o escultor baiano Francisco Manoel das Chagas.

Em Minas Gerais, as ordens terceiras cumpriam, em parte, o papel que as ordens primeiras religiosas exerciam nas cidades litorâneas — o clero, sem ideal missionário, tornou-se mero funcionário do governo, com a atribuição de rezar as missas aos domingos e dias de festa e atender a confissões na Páscoa. Na mão das irmandades, as paróquias passam a ser postos de controle da Coroa, ao mesmo tempo que se encarregam da missão de construir dispendiosos templos. Dessa maneira, a disputa por melhores terrenos, artesãos e promoção dos dias festivos canalizava os conflitos sociais e punha em estado de vigilância as irmandades, evitando as aspirações de independência.

Para a arte, essa contenda foi salutar, pois legou as mais belas igrejas das ordens leigas, sendo obra-prima a de São Francisco de Ouro Preto, onde Antônio Francisco Lisboa pode revelar-se como gênio. Esse conjunto arquitetônico corporifica as desavenças entre as duas freguesias existentes em Vila Rica: a de Antônio Dias, dos paulistas, e a do Pilar, dos mineiros. Entre as duas majestosas igrejas, a de São Francisco e a de Nossa Senhora do Carmo, a construção da Casa de Câmara e Cadeia (atual Museu da Inconfidência) dialoga com o Palácio dos Governadores, na Praça Tiradentes.

Esse conjunto harmonioso é síntese do espírito barroco de uma sociedade lúdica e alienadora, que deve levar uma vida simples de vassalo. Amante das coisas efêmeras mas buscando símbolos de permanência, outorga para si todo o artificialismo da corte, promotora desse processo participativo de aglutinamento e, ao mesmo tempo, repressivo na conduta social. Se não se pudessem apontar todas as qualidades formais e estéticas do estilo barroco em nossas mais belas igrejas, sem dúvida o espírito barroco que ainda paira sobre esse ambiente, com uma natureza “ciclopicamente barroca” (Machado, 1991, p.110), seria a prova ainda pulsante da síntese dos ideais e anseios do homem brasileiro do século XVIII.

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BASTIDE, Roger.
Imagens do Nordeste Místico em Branco e Preto. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1945.


MACHADO, Lourival G.
Barroco Mineiro. São Paulo: Perspectiva, 1991.


TIRAPELI, Percival e PFEIFFER Wolfgang.
As mais belas igrejas do Brasil. The Most Beautiful Churches of Brazil. São Paulo : Metalivros, 1999.