Download PDF Projeto Aleijadinho

Congonhas, MG, 1757-1805.
Antônio Francisco Lisboa – Passos da Paixão e Os Doze Profetas

O santuário fundado pelo português Feliciano Mendes (morreu em 1765), como um ex voto – por uma graça alcançada – é considerado o altar da arte do Brasil colonial. A experiência da vivência do santuário de Congonhas, construído entre 1757 e 1805, feito nos moldes daqueles dos sacros montes do norte de Portugal, é sem dúvida a de entrar no mundo da arte e na alma do povo mineiro. Sobre o Morro Maranhão, de longe se destacam com as palmeiras imperiais as Capelas dos Passos da Paixão e a igreja toda branca contra as azuladas montanhas sinuosas. É das páginas de glória da arte brasileira, nossa Bíblia esculpida com pedra-sabão no dizer dos poetas modernistas Mário e Oswald de Andrade, que viram ali a possibilidade de ruptura com a arte lusa em prol de uma legítima expressão de brasilidade com as obras de Aleijadinho que lá esculpiu com seus auxiliares as 64 esculturas em cedro da Via Sacra e em pedra sabão os 12 Profetas.

O peregrino inicia a visita pelas capelas Construção religiosa de pequeno porte; nomenclatura eclesiástica; são também chamadas de capelas quaisquer templos que não sejam igrejas matrizes; recinto de uma igreja onde fica um altar particular dos Passos da Paixão no pé da subida pela Sagrada Ceia com os 12 apóstolos ao redor da mesa, Cristo ao centro e dois criados nas laterais. É das mais expressivas, pela posição das mãos e rostos que dialogam sobre quem iria trair Jesus. As primeiras esculturas são de corpo todo, e depois apenas os troncos são expostos sobre tamboretes. A policromia do mestre Ataíde é discreta em tons pastéis. O Cristo e as figuras principais continuam sendo do mestre Aleijadinho nas outras capelas, sendo as figuras secundárias entregues aos artesãos de seu atelier. Esta capela foi projetada por Aleijadinho e as subsequentes construídas posteriormente para abrigar as suas obras (1865 -1872).

Os profetas do Antigo Testamento dispostos no muro do adro Pátio, em geral fechado, à frente ou em torno das igrejas. (Profetas de Congonhas e São Francisco de Ouro Preto) poderiam ser apenas estátuas, como tantas outras tão comuns quando desta representação. Porém, Germain Bazin (1971, p. 186), que as estudou, diz se tornarem verdadeiras obras de arte deste que ele considera o último dos santeiros místicos do mundo. As doze obras dialogam entre si pelos gestos e textos que levam em rolos –filactérios Rolo de pergaminho com textos sagrados; (filactera) pequena caixa contendo textos bíblicos escritos em cédulas de pergaminho; na Idade Média, fitas com inscrições dos dizeres dos personagens, em geral os santos; na Idade Moderna, textos dos dizeres dos personagens nas histórias em quadrinhos  – junto às vestes. Curvam-se, gesticulam e elevam os braços e mãos ao pregar profecias. Um verdadeiro balé com pés dispostos em passos rígidos e expressões que elevam aos céus. Daniel e Jonas são esculturas feitas em um só bloco, saídas das mãos do mestre que retocou todas as outras na parte superior e nos ornamentos dos tecidos.

Antes de adentrar o templo, a portada Grande porta enquadrada por composição ornamental. (Estas composições fazem de Aleijadinho o grande mestre em especial nas igrejas franciscanas de Ouro Preto, São João del Rey; as carmelitas em Sabará, Ouro Preto e São João del Rey além daquela de Congonhas) de pedra-sabão e o óculo trilobado inauguram o novo estilo rococó Estilo ornamental surgido na França durante o reinado de Luís XV (1710-1774) e caracterizado pelo uso de curvas caprichosas e formas assimétricas e pela delicadeza dos elementos decorativos, como conchas estilizadas (rocailles), laços, flores, folhagens, que tendiam a uma elegância requintada; no Brasil perdura até o neoclassicismo (1816) que atingiria todas as outras igrejas a partir da segunda metade do século XVIII. O interior surpreende com a coloração pastel exibida em toda a programação pictórica, desde o coro com figuras dos patriarcas do Antigo Testamento até as cenas da vida de Maria e o Menino Jesus ainda nas paredes da nave parte interna da igreja desde a entrada até a capela-mor; denomina-se nave central quando esse espaço é subdividido por pilares, colunas ou arcos e da Paixão na capela-mor Capela principal, onde fica o altar-mor de uma igreja . Completando as cenas do Sacro Monte, o altar mor Altar ou retábulo principal de uma igreja ou capela, posicionado na parede. ( São Francisco de Ouro Preto) tem o Bom Jesus crucificado e, na base no altar, o Cristo depositado no esquife velado por um anjo Elemento ornamental dos mais presentes em retábulos e arcos-cruzeiros. Os mais pequenos são os querubins ou serafins, os arcanjos são os maiores, como adolescentes ou adultos jovens. (Nas portadas e coroamentos dos altares de praticamente todas as igrejas que Aleijadinho fez) postado de joelhos. A luminosidade que destaca os tons pastéis da policromia Trabalho de revestimento com pintura ou douramento de talha, imagens etc.com duas ou mais cores. (Mestre Ataíde aplicava a policromia nos altares e esculturas em madeira de Aleijadinho) dos retábulos Estrutura ornamental de pedra ou talha de madeira que se eleva na parte posterior do altar; genericamente obedece à seguinte classificação: jesuítico ou maneirista (início do século XVII); nacional português (1680-1720); joanino (1720-1760); rococó (1760-1816); e neoclássico. (século XIX) (Seu mais importante retábulo mor está na igreja de São Francisco de Ouro Preto; desenhos os de São João del Rey e do Carmo de Sabará) ilusionistas com tonalidade ocre.

Para o santuário acorreram os grandes artistas da segunda metade do século XVIII, como os mestres Antônio Roiz Falcato (início das obras), Francisco de Lima Cerqueira (construiu a capela mor, torres e frontão), Tomás de Maya Brito (construiu o adro e capela mor) e Manuel Rodrigues Coelho; os pintores João Nepomuceno (forro da nave e outros painéis) e Bernardo Pires (teto da capela-mor); os entalhadores Jerônimo Félix Teixeira (retábulos da nave e dois púlpitos), Manuel Rodrigues Coelho (adaptação dos retábulos da nave e imagens), Luís Pinheiro de Sousa e João Antunes de Carvalho (retábulo mor). Há quatro grandes anjos de Francisco Vieira Servas no retábulo-mor. O santuário possui ainda Museu de Ex-Votos. Todo o conjunto passou por restauro em 1957, no projeto do Iphan conhecido como a Reconquista de Congonhas (Machado, 1978, p. 301-160), com paisagismo de Burle-Marx.

Em Minas Gerais, o Santuário de Bom Jesus dos Matosinhos reúne uma plêiade de artistas que ali acorreram no século XVIII para edificar o maior santuário do período colonial das Américas, segundo os moldes da tradição portuguesa, erigidos no alto de montanhas, tal como na região de Braga (Bazin, 1971, p. 223). Nosso santuário, de menor proporção que o português, agiganta-se com a genialidade de Aleijadinho, que ali realiza sua maior obra de escultura, já na idade madura, esculpindo, no dizer de Oswald de Andrade, “a Bíblia em pedra-sabão”. Estudos sobre iconografia do estudioso americano Robert Smith revelaram as semelhanças entre os profetas de Aleijadinho e pinturas medievais flamengas, bem como uma gravura de afresco de Rafael mostrando um profeta que se assemelha a Daniel, que está em Santa Maria della Pace (Roma) — reproduzido em gravura, chegou aos olhos do Aleijadinho (Taveira, 1985, p. 95). Hoje se sabe que esse profeta é considerado o único a ter sido totalmente esculpido pelo próprio Aleijadinho. Outras semelhanças decorrem dos modelos das esculturas do Santuário de Bom Jesus de Braga, ali esculpidas pelos irmãos Souza (Bazin, 1971, p. 231).

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BAZIN, Germain Aleijadinho e a Escultura. Rio de Janeiro : Record, 1971.


COSTA, Lucio. Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. in: O universo mágico do barroco brasileiro. Emanuel Araujo (org). São Paulo : SESI,1998.


OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro. Aleijadinho : Passos e Profetas. Belo Horizonte: Editoras Itatiaia/EDUSP,1984.


MACHADO, Lourival G. Barroco Mineiro. São Paulo : Perspectiva, 1973.


TAVEIRO, Celso. O Aleijadinho em Congonhas: as hipóteses de Germain Bazin. in Barroco. Ouro Preto : UFMG, nº 13, 1985.


SILVA, Soraia Maria. Profetas em movimento. São Paulo : Edusp/Imprensa Oficial, 2001.


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Dicionários

CHEVALIER, Heab e GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Simbolos. Rio de Janeiro : Ed. José Olympio, 1990.


JENNI, E. e C. WESTERMANN. Diccionario Teológico Manual del Antiguo Testamento. Madrid : Ed. Cristandad, 1978.


SANCHÉZ, Tomás Parra. Dicionário da Bíblia. Aparecida : Editora Santuário, 1997.

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