Download PDF Projeto Aleijadinho

A contenção gestual de Isaias, agarrado às suas profecias, condiz com a gravidade de seu semblante a sussurrar catástrofes com uma brasa ardente na boca. Com a mão direita indica incisivamente a palavra escrita.  O capuz nascido das vestes confirma o sentido sagrado e soturno de sua missão mística. Os rolos de barba confirma sua experiência de vida, senhor do tempo, verdadeiro Cronos.  O gesto de Jeremias confirma a importância da escrita com a pena na mão; as escrituras estão em espelho com aquelas de Isaias confirmando missão semelhante. A gestualidade do profeta Ezequiel é de convite, chamado para seguir os degraus do segundo lanço da escadaria. Ao atingir o terceiro lanço, o profeta Baruc já é notado na altura abaixo dos olhos com pés dispostos em caminhada, apesar da postura rígida. Na altura do adro, Daniel evidencia seu atributo: ficara preso na cova com os leões. Braços e mãos equilibram a figura maciça que solenemente ignora a fera imposta em seu caminho, ocultando nela seus passos. Oseias, evidenciando seus pés, e de feitura a ser admirada frontalmente, abre um diálogo franco com o interlocutor, Daniel, e ambos se assemelham na mostra de suas palavras escritas nos filactérios. Joel, na extrema direita, faz um movimento de rotação com o torso, evidencia o perfil do rosto e rima com a pena e barrete semelhantes aos de Oséias. Difere na forma de voltar para o fiel o escrito de suas palavras proféticas. Na extrema esquerda, Jonas tem oposições e semelhanças com Daniel. Ambos tem atributos de animais – ficara preso no ventre de uma baleia – e opostos na posição das cabeças, serena a de Daniel, atormentada a de Jonas ao emergir das águas.

O que se segue é uma sequencia fascinante de atitudes que vão da serenidade de Amós no pináculo mais alto, ao recuo de corpo de Naum no extremo oposto, talvez revelando o lado humano do profeta em permitir certa insegurança. Abdias e Habacuc são atores de gestos largos, vociferantes, que do alto do púlpito, a céu aberto, se expandem na gestualidade excessiva do momento da prédica. Habacuc é molestado pela mesma ventania que abalara Naum. Tudo isso confirma a sabedoria de Aleijadinho no posicionamento de cada um dos profetas, e o papel que a natureza tem na composição e disposição de cada um deles – que, nesta terra, cumprem missão divina.

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BAZIN, Germain. Aleijadinho e a escultura barroca no Brasil. Rio de Janeiro: Record, 1970.


OLIVEIRA, Myriam Andrade Ribeiro de. O Aleijadinho e o santuário de Congonhas. Roteiros do Patrimônio. Brasília : Monumenta/Iphan, 2006.


TEIXEIRA, José de Monterroso. Aleijadinho, o teatro da fé. São Paulo : Metalivros, 2007.