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Projeto Aleijadinho

Entre o mito e os estudos

Filho bastardo do arquiteto e mestre de obras português Manuel Francisco Lisboa e de uma de suas escravas, Isabel. Casou-se e teve um filho com o mesmo nome do avô. Estudou com os franciscanos em Ouro Preto e acompanhava o pai nas obras. A primeira biografia do artista foi escrita em 1858, 44 anos após sua morte, pelo jurista Rodrigo José Ferreira Bretas, baseada em documentos de arquivo e depoimentos. Mesmo assim gerou uma mítica entre a dura realidade que enfrentou com a doença e a beleza das obras por ele produzida. As fronteiras entre o mito Aleijadinho, mulato e deformado e aquele Antônio Francisco Lisboa, arquiteto, escultor e santeiro, nem sempre são claras pois a primeira é do conhecimento popular que causa compaixão e a segunda, a culta, a aclamar o maior artista colonial brasileiro.

Na década de 20 do século modernista foi redescoberto pelos artistas modernistas paulistas, em especial Mario de Andrade, que o aclamou símbolo da arte brasileira. Vinte anos depois, quando da criação do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, teve sua biografia revisada com os comprovantes e assinaturas dos recibos de seus trabalhos, artigo escrito por Rodrigo Melo Franco. Sua projeção internacional veio com a publicação do livro Aleijadinho et la sculpture baroque au Brésil, de Germain Bazin, que na ocasião (1963) era o conservador e chefe dos Museus do Louvre, em Paris, França.

Confirmado como figura central da arte colonial brasileira os estudos ampliaram para especificidades como sua arquitetura (em especial as igrejas franciscanas de Ouro Preto e São João del Rey) e o conjunto escultórico do santuário de Congonhas – os Passos da Paixão e os Profetas. Esta obra foi aclamada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1985. Sua obra escultórica foi estudada além de Bazin, que a catalogou inicialmente, gerando uma lista de obras individuais e outra de sua oficina, portanto autênticas e que foram confirmadas por um exaustivo levantamento do Iphan O Aleijadinho e sua oficina (2002)

Nada impede que inúmeras publicações, desde artigos até teses, se desenvolvam ao redor da mítica de sua existência – que sua obra teria sido de um conjunto de artistas e posteriormente atribuída a um só artista -; de sua doença, o que teria como consequência vária exumações de seus ossos – que teria sido leproso, mas que nunca seu nome fora encontrado nos levantamentos da época, pois os doentes teriam que serem isolados, ou ainda doença nos ossos ou mesmo sífilis; frequentes exposições nas quais aparecem cada vez mais obras a ele atribuídas baseadas nas características formais (estilemas); a mediunidade também entra neste rol de possibilidades fazendo que Aleijadinho tenha a mais ampla e diversa bibliografia de um artista brasileiro, confirmando assim o interesse por sua obra e sua mítica.